#1 Nos headphones, Berna – 2000 anos

Bem-vindos ao primeiro “Nos headphones”, a nova série de posts do Rede Hip-Hop sobre as músicas que ando a ouvir. Vamos lá.

13567012_812138805553287_6213257354904410236_nÉ claro que eu já conhecia o trabalho do Berna. Lembro do tempo do Reflexologia (2002) e dos Sindicado Sonoro, mas por alguma razão, que não consigo agora justificar, não ouvi os seguintes projetos. No fim do ano passado passei na Skills, uma skate shop em Braga que costuma ter uns CDs de rap, e comprei o segundo álbum dele – O Quebrar do Gelo (2009). Meio nada a ver, mas deixem-me destacar que nesse dia decidi que iria colecionar CDs físicos de rap. Estou bem no começo… ainda só tenho uns 4 ou 5.

O segundo disco do nortenho foi direta e rapidamente para o carro. Percebi que já tinha escutado uma ou outra música, por exemplo, Amizade. Depois de deixá-lo em “repeat mode” durante os dias seguintes cheguei à conclusão que Berna é provavelmente um dos mais subestimados rappers portugueses. Mas isso já é outro tópico… Falemos da faixa “2000 anos“, uma das minhas favoritas.

Este mostra-se como um daqueles sons sobre o estado atual da sociedade, que tenta sensibilizar os ouvintes a se consciencializarem acerca daquilo que, na perspetiva do artista, contribui para a inversão de certos valores e aumenta a desigualdade social, financeira, etc. O seu conteúdo acabou de me lembrar do “Nossos tempos” (2002) de Valete. Embora pareça que Berna faça alusão ao panorama português, percebe-se que este se dirige igualmente a questões que ultrapassam as nossas barreiras geográficas.

  • “(…) E esse ramo financeiro que eu saiba nunca deu frutos
    Os fundos comunitários quando chegam cá são curtos

    O homem questiona como vai mudar o mundo
    Mas no segundo que o faz já não tem solução.”   

O que mais me agrada na mensagem de “2000 anos” é a crítica ao individualismo e à passividade humana face aos inerentes problemas da sociedade. Estes pontos, relacionados e naturais desta era pós-moderna, mostram como o egoísmo e o egocentrismo implicam a indiferença pelo próximo.

  • “Brigas entre putos resolvem-se ao tiro
    Não me digas que não é nada contigo
    Este é o sítio onde vais por um filho
    Não me digas que não é nada contigo
    O clima, noite e dia, anuncia o perigo
    Não me digas que não é nada contigo
    Caso tenhas tento, mano ainda vais a tempo
    Queres mudar? Então canta comigo
    (Nós) Porque andamos sem parar, 2000 anos a pensar
    Que o progresso é um fim e não um meio pra alcançar
    (Tu) Um sonho por conquistar
    Não quero pregar a missa mas a Terra obriga-me a falar”

Gosto da forma como o MC não se coloca no clássico papel de moralista, que dita e ensina o que deve ser feito, mas inclui-se de certa forma como parte do problema (nós) e da solução (Queres mudar? Então canta comigo). A sua “pregação” incentiva a intervenção e ainda um pensamento pró-comunidade, raízes tradicionais da cultura hip-hop.

O instrumental foi bem escolhido e a performance de Berna é bastante convincente. Tenho de dizer que, no caso de músicas de intervenção, aprecio quando a letra e o flow do MC não deixam grandes pausas desde que se começam a ouvir. Este efeito prende-me a atenção no que está a ser dito e traz-me até uma certa tensão, como se estivesse numa manifestação onde não há descanso ou tempo para outras coisas que não protestar. Sinto-me absorvido. Outro aspeto estrutural que me alegrou nesta faixa centra-se no facto de Berna fazer um refrão-ponte a introduzir o principal, o qual possui três versões ao longo da música.

O “2000 anos” deve ser um dos sons que mais gosto de Berna. Tenho a certeza que o citarei em futuros trabalhos académicos, como um claro exemplo no rap português de uma mensagem que visa consciencializar os ouvintes de que os problemas da sociedade dizem respeito a todos nós. Um absoluto clássico!

Nota: Estes posts acabam por ser uma review de músicas que ando a ouvir, em vez de uma menção a um conjunto delas. Assim, decidi que, de vez em quando, vou publicar na página de Facebook pequenas listas de faixas que pairam nos meus headphones. Isto não quer dizer que esses sons nunca aparecerão aqui no site.

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Dissertação de mestrado e outras ideias

Dissertação de mestrado

Instagram Davide GravatoA defesa da dissertação já tem uns meses, mas só agora lembrei de escrever sobre isso. O título final ficou o mesmo – Rap em Portugal: comunidades online, lógicas de comunicação e posicionamentos identitários na internet. Este estudo procura identificar posicionamentos identitários do rap português, e perceber como estes se transpuseram para a internet, assim como se configuram as comunidades online relacionadas ao movimento cultural na rede. Além de uma contextualização geral, procuramos mapear as páginas e grupos generalistas de Facebook sobre hip-hop português, para que pudéssemos compreender o enquadramento e a formação dessas comunidades.

->Devo fazer outros posts sobre partes do conteúdo da dissertação, mas se tiverem interesse em ler ou fazer download desta… aqui está o link.<-

Outras ideias…

Ando a ter umas ideias para melhorar o Rede Hip-Hop. Eu sei que isto precisa de um site e logo decentes, mas estou a falar mais sobre conteúdo. Além de ser óbvio que preciso de postar mais vezes, pensei que podia criar umas séries de publicações diferentes. Eis algumas destas ideias que colocarei em prática num futuro muito próximo:

  • Nos headphones: Esta será uma série de publicações semanal ou quinzenal, ainda não me decidi, sobre as músicas que ando a ouvir. Quero ainda comentar sobre o que gosto/desgosto nelas, para não ser apenas uma lista de nomes.

e

  • Frases do hip-hop tuga: O nome já denuncia praticamente tudo. Ainda assim, e como estas frases deverão estar ligadas às músicas que ando a ouvir (nos headphones), quero também comentar algo sobre elas.

E é isso… 

Coluna Cenas Dessas – Google festeja o dia do Hip-Hop?

Eu sou daqueles que usa o Facebook para dar os parabéns porque me esqueço das datas de aniversário de todos. Minha memória é hiper seletiva… O Facebook não me avisou do 44º aniversário do Hip-Hop, mas eu lá vi uns posts sobre a homenagem do Google à data, e lá fui eu averiguar.

O primeiro sentimento foi uma mistura entre orgulho e respeito. Bateu orgulho por me sentir parte da cultura, e respeito pelo Google, porque se lembrou. Isto de fazer parte das chamadas “sub-culturas” (abomino o nome) leva-te a pensar que o Google poderia achar que era mais importante, sei lá, homenagear o trabalho do Robin Williams. Nada contra o Popeye!

Não sei se já viram, mas a página inicial do motor de busca mostra uma versão simplista e unifacetada da história do Hip-Hop nos EUA, e depois oferece-nos um tutorial de DJing virtual…tipo o programa Virtual DJ que toda a gente sacava para se armar em DJ. Diverti-me lá com os famosos samples e loops e segui o meu dia.

Mais tarde, quero dizer…agora, fiquei a pensar nisto das homenagens do Google. Nenhuma empresa precisa de seguir o valor da cultura da liberdade ou usar a estrutura horizontal da internet, até porque muitas empresas deixariam de existir, mas pensei: será que isto é suficiente? Em 2016 tiveram um faturamento de mais de 75 bilhões, e apesar dos bons serviços que oferecem, e de umas migalhas que às vezes atiram para o chão, não seria de esperar algo mais humano de uma empresa destas? Sei lá… parece meio falso homenagear uma cultura que, na essência, nos ajuda a desenvolver uma mundividência e a olhar para os outros, enquanto eles não se fazem sentir presentes numa nota positiva.

google

Fica a dica

 

Mudança no texto do Rede Hip-Hop

Decidi mudar o formato das publicações aqui no Rede Hip-Hop. Se já leram as anteriores, repararam que o formato do texto é bastante semelhante ao estilo que um académico utilizaria. Não estou a dizer que não me considero académico, mas penso que a minha ambição inicial era fazer este blogue chegar à comunidade Hip-Hop, e só depois a outros públicos.

Outra razão para esta mudança dá-se ao facto de que já escrevo num formato académico para a dissertação. Penso que terei mais prazer em escrever neste blogue se me sentir livre das regras de publicação, etc…

Assim, esperem textos mais informais nos próximos posts. Apenas para não criar confusão, deixem-me ressaltar que manterei o mesmo rigor quanto ao conteúdo, pois só mesmo o texto sofrerá mudanças.

Peace!

A internet como um meio (+estatísticas)

A internet trouxe, entre outras coisas, várias mudanças para a sociabilidade humana. Outros meios de comunicação e informação vão gradualmente perdendo espaço, e a rede vai substituindo-os trazendo uma diferente estrutura, horizontal. A televisão, embora ainda seja uma mídia relevante, não consegue acompanhar o fluxo de informação da internet, e oferece uma interatividade bastante limitada por funcionar binariamente – estando ou não em frente a uma.

Os canais temáticos da televisão também não conseguem acompanhar a fragmentação tópica das redes em fóruns e redes sociais. Enquanto surge um “septingentésimo” canal sobre a música de um certo país ou região, seguramente já existe um conjunto de páginas com conteúdo relacionado na internet. Obviamente não foi sempre assim, até porque a rede continua a expandir diariamente.

Se consultarmos o sítio Internet Live Stats, que coleta dados da internet a partir da União Internacional de Comunicações, Banco Mundial e da Divisão da População das Nações Unidas, poderemos consultar várias métricas e estatísticas sobre a internet (e o seu uso).

Gráfico 1 - número de utilizadores da internet

O gráfico acima identifica a curva crescente dos utilizadores da rede, e pudemos ver que cerca de 40% da população mundial possui conexão à rede. O primeiro bilhão foi atingido em 2005, o segundo bilhão foi alcançado cinco anos depois em 2010, e o terceiro chegou quatro após o segundo, em 2014.

É natural que com o aumento de penetração (percentagem de população com acesso) a percentagem de crescimento anual vá diminuindo. Mas também será natural o não acesso de utilizadores dos países mais pobres, o que contribuirá o contínuo decréscimo de novos utilizadores que iniciou em 2010:

Tabela 2  - número de novos utilizadores da internet

O facto de que, em 2013, o continente africano representava apenas 9.8% de utilizadores mundiais precisa ser ressaltado como um valor preocupante. Embora a internet tenha tido o mais rápido índice de penetração que qualquer outro meio de comunicação existem variáveis raciais, sociais e económicas que condicionam o acesso à rede. Enquanto revia os números do Internet Live Stats percebi que quando tive pela primeira vez acesso à internet (algures em 2000) fazia parte dos 6.7% da população mundial. Mais estranho ainda, foi pensar que quatro anos mais tarde (2004) quando o meu acesso à internet se tornou praticamente diário devido à contratação de um serviço de quatro megas, fazia parte de 14.1% da população mundial com acesso à rede. Ainda que pessoais, estes pontos de vista realçam as estatísticas de uma internet ainda elitizada, em uma sociedade em rede limitada.

Espero que tenham gostado destes pequenos insights sobre a internet como meio. Um texto similar a este estará disponível na versão final da minha dissertação, que, assim que terminada, estará disponível para download gratuito aqui no Rede Hip-Hop. Seguem-se as referências para este texto (se quiserem exatamente quem disse o quê basta perguntarem nos comentários, que respondo no mesmo dia):

– Sítio Internet Live Stats
– Manuel Castells (2005) A sociedade em rede. (8 ed.) São Paulo: Paz e Terra
– Davide Gravato (2016) Rap em Portugal: comunidades online, lógicas de comunicação e posicionamentos identitários na internet

No próximo post vou abordar a comunicação mediada por computador (CMC), e provavelmente, abordar alguma coisa relacionada com o conceito de virtualidade.

Davide Gravato

Conceito de sociedade em rede (introdução)

Uma vez que a minha pesquisa trata a identidade do rap português na rede, foi-me impossível não abordar o conceito de sociedade em rede. Não explicarei o conceito de uma forma densa, mas como provavelmente irei citar a teoria mais do que uma vez, não custa perceber de onde isso vem…

Manuel Castells disse que a internet “es un medio de comunicación que permite, por primera vez, la comunicación de muchos a muchos”. Ela possibilita então a formação de uma grande rede de comunicação. Não quero aqui dizer que redes de comunicação não existiam antes da internet, mas que esta base tecnológica da era da informação impulsionou e organizou essas redes, numa nova dinâmica através da comunicação mediada por computador (CMC). O autor faz ainda uma comparação de importância entre a internet e a rede elétrica na era industrial, equiparando-as.

A teoria de sociedade em rede de Manuell Castells (1996-2000), apesar de ser pré redes sociais de massa como Facebook e Twitter, é ainda uma base sólida para introduzir o que significa estar online. Esta teoria serve também para fundamentar um contexto mais amplo e global em que a internet se insere, ou seja, uma realidade e quotidiano tecnológico que avança(va) rapidamente.

Os humanos recorrem consecutivamente à tecnologia para mudar a sociedade, e esta acaba por ajudar a transformação de uma mundividência que ela promoveu anteriormente. Assim os seus utilizadores se apropriam da tecnologia para amplificar uma nova mundividência. A internet trouxe uma nova visão perante a interação humana e consumo de mídia, pois a comunicação mediada por computador trouxe a ideia do virtual, que por si só, traz questionamentos quanto à possível variação de uma identidade coletiva ou individual, e suas consequências. Assim como outras tecnologias decisivas no passado (roda, máquina a vapor, rede elétrica, etc.), a internet tem sido importante para a recente configuração social em que vivemos.

Este alicerce digital e virtual é a base da sociedade em rede de Castells. Esta sociedade usa recentes tecnologias que os capacitam de meios para se comunicar e informar, transcendendo o espaço e tempo. Através da internet podemos dialogar com pessoas de qualquer parte do mundo, trabalhar remotamente, mantermo-nos atualizados das últimas notícias sobre um local do outro lado do globo, entre muitas opções em rede que nos mantêm interconectados. No entanto, este modelo requer que a sociedade também mude e se adapte.

Por hoje está bom de teoria! Num outro post irei falar da internet como um meio na sociedade em rede. Estes conceitos vão ser úteis quando tratarmos do rap tuga na rede.

Davide Gravato

Fonte:
– Manuel Castells (2001) La Galaxia Internet. Areté.
– Manuel Castells (2005) A sociedade em rede. (8 ed.) São Paulo: Paz e Terra
– Davide Gravato (2016) Rap em Portugal: comunidades online, lógicas de comunicação e posicionamentos identitários na internet

Nota: Este conteúdo irá estar disponível na versão final da minha dissertação, que, assim que terminada, estará disponível para download gratuito aqui no Rede Hip-Hop.

Primeiros capítulos entregues…

Hoje entreguei os primeiros capítulos da minha dissertação. Até ao final deste mês devo entregar mais dois. Não estou propriamente adiantado, mas acho que acabarei a tempo.

Há uns tempos fiz um sumário temporário sobre a dissertação, onde postei um index sobre os capítulos, etc. Posso dizer que esse índice já está desactualizado, e assim que a minha orientadora der o OK, irei postar a versão final.

Começarei então a publicar aqui algumas coisas sobre internet, comunicação e Hip-Hop… tópicos esses relacionados com a dissertação. Decidi também que não vou complicar muito quanto aos aspectos mais académicos/teóricos. O blogue será mais direccionado para um público-alvo que gosta de Hip-Hop, mas também de ler mais qualquer coisa que as letras das músicas. Não faz sentido fazer um blogue de Hip-Hop apenas, pois não é esse o meu focus. Também não faz sentido publicar muita teoria e base académica, e tentar chegar até à comunidade Hip-Hop…

É isso… só para me habituar a postar mais.

Até mais!