A internet como um meio (+estatísticas)

A internet trouxe, entre outras coisas, várias mudanças para a sociabilidade humana. Outros meios de comunicação e informação vão gradualmente perdendo espaço, e a rede vai substituindo-os trazendo uma diferente estrutura, horizontal. A televisão, embora ainda seja uma mídia relevante, não consegue acompanhar o fluxo de informação da internet, e oferece uma interatividade bastante limitada por funcionar binariamente – estando ou não em frente a uma.

Os canais temáticos da televisão também não conseguem acompanhar a fragmentação tópica das redes em fóruns e redes sociais. Enquanto surge um “septingentésimo” canal sobre a música de um certo país ou região, seguramente já existe um conjunto de páginas com conteúdo relacionado na internet. Obviamente não foi sempre assim, até porque a rede continua a expandir diariamente.

Se consultarmos o sítio Internet Live Stats, que coleta dados da internet a partir da União Internacional de Comunicações, Banco Mundial e da Divisão da População das Nações Unidas, poderemos consultar várias métricas e estatísticas sobre a internet (e o seu uso).

Gráfico 1 - número de utilizadores da internet

O gráfico acima identifica a curva crescente dos utilizadores da rede, e pudemos ver que cerca de 40% da população mundial possui conexão à rede. O primeiro bilhão foi atingido em 2005, o segundo bilhão foi alcançado cinco anos depois em 2010, e o terceiro chegou quatro após o segundo, em 2014.

É natural que com o aumento de penetração (percentagem de população com acesso) a percentagem de crescimento anual vá diminuindo. Mas também será natural o não acesso de utilizadores dos países mais pobres, o que contribuirá o contínuo decréscimo de novos utilizadores que iniciou em 2010:

Tabela 2  - número de novos utilizadores da internet

O facto de que, em 2013, o continente africano representava apenas 9.8% de utilizadores mundiais precisa ser ressaltado como um valor preocupante. Embora a internet tenha tido o mais rápido índice de penetração que qualquer outro meio de comunicação existem variáveis raciais, sociais e económicas que condicionam o acesso à rede. Enquanto revia os números do Internet Live Stats percebi que quando tive pela primeira vez acesso à internet (algures em 2000) fazia parte dos 6.7% da população mundial. Mais estranho ainda, foi pensar que quatro anos mais tarde (2004) quando o meu acesso à internet se tornou praticamente diário devido à contratação de um serviço de quatro megas, fazia parte de 14.1% da população mundial com acesso à rede. Ainda que pessoais, estes pontos de vista realçam as estatísticas de uma internet ainda elitizada, em uma sociedade em rede limitada.

Espero que tenham gostado destes pequenos insights sobre a internet como meio. Um texto similar a este estará disponível na versão final da minha dissertação, que, assim que terminada, estará disponível para download gratuito aqui no Rede Hip-Hop. Seguem-se as referências para este texto (se quiserem exatamente quem disse o quê basta perguntarem nos comentários, que respondo no mesmo dia):

– Sítio Internet Live Stats
– Manuel Castells (2005) A sociedade em rede. (8 ed.) São Paulo: Paz e Terra
– Davide Gravato (2016) Rap em Portugal: comunidades online, lógicas de comunicação e posicionamentos identitários na internet

No próximo post vou abordar a comunicação mediada por computador (CMC), e provavelmente, abordar alguma coisa relacionada com o conceito de virtualidade.

Davide Gravato

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Conceito de sociedade em rede (introdução)

Uma vez que a minha pesquisa trata a identidade do rap português na rede, foi-me impossível não abordar o conceito de sociedade em rede. Não explicarei o conceito de uma forma densa, mas como provavelmente irei citar a teoria mais do que uma vez, não custa perceber de onde isso vem…

Manuel Castells disse que a internet “es un medio de comunicación que permite, por primera vez, la comunicación de muchos a muchos”. Ela possibilita então a formação de uma grande rede de comunicação. Não quero aqui dizer que redes de comunicação não existiam antes da internet, mas que esta base tecnológica da era da informação impulsionou e organizou essas redes, numa nova dinâmica através da comunicação mediada por computador (CMC). O autor faz ainda uma comparação de importância entre a internet e a rede elétrica na era industrial, equiparando-as.

A teoria de sociedade em rede de Manuell Castells (1996-2000), apesar de ser pré redes sociais de massa como Facebook e Twitter, é ainda uma base sólida para introduzir o que significa estar online. Esta teoria serve também para fundamentar um contexto mais amplo e global em que a internet se insere, ou seja, uma realidade e quotidiano tecnológico que avança(va) rapidamente.

Os humanos recorrem consecutivamente à tecnologia para mudar a sociedade, e esta acaba por ajudar a transformação de uma mundividência que ela promoveu anteriormente. Assim os seus utilizadores se apropriam da tecnologia para amplificar uma nova mundividência. A internet trouxe uma nova visão perante a interação humana e consumo de mídia, pois a comunicação mediada por computador trouxe a ideia do virtual, que por si só, traz questionamentos quanto à possível variação de uma identidade coletiva ou individual, e suas consequências. Assim como outras tecnologias decisivas no passado (roda, máquina a vapor, rede elétrica, etc.), a internet tem sido importante para a recente configuração social em que vivemos.

Este alicerce digital e virtual é a base da sociedade em rede de Castells. Esta sociedade usa recentes tecnologias que os capacitam de meios para se comunicar e informar, transcendendo o espaço e tempo. Através da internet podemos dialogar com pessoas de qualquer parte do mundo, trabalhar remotamente, mantermo-nos atualizados das últimas notícias sobre um local do outro lado do globo, entre muitas opções em rede que nos mantêm interconectados. No entanto, este modelo requer que a sociedade também mude e se adapte.

Por hoje está bom de teoria! Num outro post irei falar da internet como um meio na sociedade em rede. Estes conceitos vão ser úteis quando tratarmos do rap tuga na rede.

Davide Gravato

Fonte:
– Manuel Castells (2001) La Galaxia Internet. Areté.
– Manuel Castells (2005) A sociedade em rede. (8 ed.) São Paulo: Paz e Terra
– Davide Gravato (2016) Rap em Portugal: comunidades online, lógicas de comunicação e posicionamentos identitários na internet

Nota: Este conteúdo irá estar disponível na versão final da minha dissertação, que, assim que terminada, estará disponível para download gratuito aqui no Rede Hip-Hop.