Primeiro Ikonoklasta, agora MCK

Tenho acompanhado a página do Luaty Beirão (Ikonoklasta), que tem feito publicações sobre as audições/interrogatórios dos activistas angolanos. Se caíram aqui de pára-quedas e não sabem do que se trata, entrem na página do Luaty, ou cliquem aqui para ler sobre o que aconteceu. Muito resumidamente, e para que entendam o ridículo que foi, passou-se algo assim:

Um dia, o rapper Ikonoklasta (Luaty Beirão), estava a usar o seu cérebro com os seus amiguinhos numa livraria. Eles estavam a discutir um texto de Gene Sharp , “Da ditadura à democracia”. Como discutir um livro desta natureza é completamente corruptível, deixando a pessoa com vontade de fazer greve de fome, Luaty e seus amigos foram presos sob acusação de tentativa de golpe de estado. Tcharam!!! Assim, Luaty e seus amiguinhos foram super bem tratados pelo Governo Angolano. Sim, Governo Angolano! Eles tiveram essa sorte… só tratamento VIP. Como faz todo sentido manter detidas pessoas que lêem livros, por mais de 90 dias (o máximo permitido pela lei…ai esquece, é o Governo Angolano), Luaty começou um protesto em forma de greve de fome. Imaginem lá… Aí pronto, as audiências finalmente começaram. Friso o óbvio novamente! Como estavam a ler um livro subversivo (props para o Agualusa), já se passaram uns 150/160 dias desde a captura destes terríveis indivíduos que ouvem rap. Tudo a portas fechadas como é claro…Pronto, foi isso que aconteceu.

Hoje, sendo o Governo Angolano super inteligente e promotor da democracia, o MCK foi barrado no aeroporto. As ordens superiores que as autoridades levaram a cabo devem ter vindo do Espírito Santo, atravessando Eduardo dos Santos e companhia, e iluminando-os para impediram o MCK de sair do país. Ele não estava a ler um livro, caso contrário teriam-no encarcerado sob atendimento com selo de qualidade governamental angolana. Mas imaginem só, MCK estava se preparando para visitar o Brasil para participar no festival Terra do Rap. Obviamente esses actos representam uma “quase subversiva tentativa de golpe de estado”, então o senso comum falou mais alto, e o MCK teve de ficar por terra…

“Mas nada muda…” Bónus

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Um sumário temporário

Pois é, este vai ser o último post sobre a estrutura da tese, pelo menos por agora. O que vou apresentar abaixo é um sumário da dissertação, que irá muito provavelmente sofrer mudanças, e que definitivamente se vai prolongar. Embora eu vá fazer publicações algo aleatórias de vez em quando, este sumário serve também para que possam ter uma ideia do que virá a seguir no blogue. Aqui vai:

  1. Internet e sociedade
    1. Contextualização da internet e a sociedade em rede
    2. Evolução da internet: da web 1.0 à 4.0
    3. Apropriação da internet pelos movimentos culturais
    4. Extração de dados online para análises da realidade virtual
  2. Comunidade imaginada na rede
    1. Comunidade imaginada por Benedict Anderson
    2. Comunidades online:
      I. Tipos de comunidades online
      II. Diferenças e semelhanças: comunidade imaginada de B. Anderson vs comunidade online de (a decidir)
  3. O Hip-Hop e a sua difusão global
    1. Origens sociais e territoriais do Hip-Hop
    2. As quatro principais vertentes
    3. Globalização da cultura Hip-Hop
    4. Contextualização social e a difusão do Hip-Hop em Portugal
  4. Identidade do rap nacional
    1. Formação das margens norte e sul
    2. A disseminação dos “códigos de conduta” nos primeiros álbuns
    3. A expressão do real e o purismo anti-americano
    4. Underground vs Mainstream
    5. Outros aspectos identitários do rap tuga
  5. Das ruas para a rede: A transição do rap português para o meio online
    1. A essência e caracterização do rap nacional na internet
    2. A compressão espaço-tempo
    3. Democratização do espaço e informação
  6. A comunidade imaginada do rap português na rede
    1. Atributos e disposição da comunidade imaginada do rap nacional na rede
    2. Discrepâncias entre o offline e online: (des)aproximação das ruas e público
    3. Relação com comunidades de outras vertentes
  7. Os rappers portugueses na internet
    1. Lógicas de comunicação e interacção com o público online:
      I (Serão escolhidos 6 projetos. Não posso divulgar nomes por enquanto)
    2. Posicionamentos identitários e análise de opinião quanto à essência do rap português no Facebook:
      I (Provavelmente os mesmos 6 projetos serão analisados. Não posso divulgar nomes por enquanto)
    3. Considerações e análises dos resultados
  8. Conclusões
  9. Anexos
    1. Análises estatísticas e semânticas da dissertação: visualização de informação

Pronto, este é o esqueleto base da dissertação, e como já devem ter reparado, pelo carácter algo vago de vários pontos, esperem várias ramificações em cada tópico.

Vou continuar a minha leitura com o Castells! Até mais…

Ikonoklasta é hip-hop: Transformando o rap em atos

Já não é a primeira vez que Luaty Beirão, provavelmente mais conhecido como Ikonoklasta no meio Hip-Hop, é detido e enfrenta adversidades físicas e mentais como consequência de sua convicção. A notícia também não é nova, pois foi em Junho quando 15 pessoas, entre elas Luaty, foram detidas sob acusação de conspirar contra o governo angolano, actualmente presidido por Eduardo dos Santos. Mesmo após 90 dias, período máximo previsto pela “lei” para manter alguém detido preventivamente, Luaty não foi libertado.

Como todos já devem saber, este começou uma greve de fome há quase 30 dias… mas não é do estado grave em que se encontra que vou escrever. Sua condição é certamente preocupante, e todos queremos que a injustiça termine, mas os média parecem querer apenas reportar o estado clínico de Ikonoklasta, em vez de pensar para contextualizar seus atos. Os poucos artigos que vejo a citarem sua música são vagos, não reflexivos e repetitivos. É preciso falar mais sobre o seu trabalho, analisar o discurso e temáticas, do que fazer apenas referência em que álbum entrou, ou com quem é que se relaciona.

Jornalistas bem referem “o rapper”, mas não falam de rap, e preguiçosamente deixam de contextualizar Ikonoklasta no movimento hip-hop tuga e angolado. Luaty vem transformando o seu discurso em atos. Diz-se que rap é o que se faz, hip-hop é o que se vive… não consigo então encontrar um exemplo mais fiel que o posicionamento de Luaty. Ele não só vive o hip-hop, aqui de maneira figurada, como parece estar disposto a morrer por ele. Hip-Hop é aqui a mensagem, o movimento, a manifestação, a democracia, a greve de fome…é Ikonokasta.

“É verdade! Juro… passou na televisão” … só não passou o importante. Força Luaty!